terça-feira, 7 de julho de 2015

"Ensaio sobre a cegueira" e "Cegueira Moral": ideias de Saramago e Bauman sobre a modernidade

 
"...o tempo está-se a acabar, a podridão alastra, as doenças encontram as portas abertas, a água esgota-se, a comida tornou-se veneno", e é necessário que identifiquemos, com urgência, as causas destes problemas gerados pela própria humanidade, e consigamos superá-los. A epidemia de cegueira narrada trata-se do horror vivenciado mas não visto; o olhar é a capacidade de ver e de reparar os males da convivência humana nas sociedades: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara" (Ensaio sobre a Cegueira)


Resolvi iniciar o artigo, com uma notícia que me deixou profundamente desesperançosa em relação a qual caminho segue a humanidade. Na Nigéria, neste sábado (10), uma menina de dez anos, sim, apenas, dez anos, foi usada como bomba, em um mercado, matando 20 pessoas! Ainda não houve a reivindicação do atentado, mas sabe-se que militantes do grupo terrorista Boko Haram têm usado frequentemente mulheres e meninas como bombas humanas na guerra para instauração de um Estado islâmico. Essa, e outras notícias, infelizmente, se tornaram diárias há anos.
Em 1995, José Saramago publicou o livro Ensaio sobre a Cegueira. As personagens são acometidas pela chamada "cegueira branca". Saramago, faz uso desta cegueira como metáfora, uma analogia do quanto as pessoas vão se tornando cegas no mundo contemporâneo, a exemplo como ocorreu com a primeira personagem do livro, que cegou quando conduzia o seu automóvel: ‘de repente a realidade tornou-se indiferenciada à sua volta’.
A seguir, há na narrativa, a história do "cego" que chegou ao oftalmologista em busca de uma solução para o seu problema, o médico considerou o caso urgente e passou-o à frente dos outros pacientes que aguardavam pela consulta. Porém, a mãe de um menino que aguardava sua vez não se sensibilizou diante da urgência do paciente inesperado e "...protestou que o direito é o direito, e que ela estava em primeiro lugar, e à espera a mais de uma hora."
Assim, o interesse próprio, a impaciência e insensibilidade dessa paciente diante de alguém com um problema considerado mais urgente foi um primeiro apontamento do autor desta cegueira ocorrer em função do distanciamento existente entre os indivíduos nas sociedades modernas. Um distanciamento que leva cada um a observar apenas os seus próprios interesses, fundados através do que for conveniente a si mesmo. Assim, Saramago não trata apenas da cegueira física, mas da cegueira moral dentro da qual a sociedade se encontra: "Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que vendo, não vêem" (José Saramago).


José Saramago

 
Cegueira Moral: a perda da sensibilidade na modernidade líquida, lançado em 2013, é um livro composto por cinco diálogos de Zygmunt Bauman, renomado sociólogo, com Leonidas Donskis, filósofo, cientista político, que giram em torno da questão do que o mal não ser apenas restrito somente às guerras ou às circunstâncias nas quais pessoas atuam sob condições de coerção extrema. Ele também se revela com frequência na insensibilidade diária diante do sofrimento do outro, na incapacidade de compreendê-lo e no desejo de controlar a privacidade alheia. Na banalização da violência cotidianamente - " A violência e os desastres se tornaram tão constantes e são de tal modo naturalizados que estamos calejados de tanta desumanidade" (Cegueira Moral). Como falei inicialmente, na triste e desumana notícia da menina-bomba, que se torna cada dia mais constante.
Bauman, trouxe os termos “relações líquidas” e “modernidade líquida” para tentar nomear esta maneira que temos hoje de nos vincular, permanecendo na realidade fechados em nossa ilha narcísica (assunto que tratei em meu primeiro artigo – “...A necessidade de construirmos uma sociedade menos individualista e egoísta, que cada vez mais nos tornamos, e sim que as redes sociais possam ter, principalmente, uma função de contribuição à sociedade!).Onde a realidade virtual, essencialmente líquida, se sobrepõe constantemente à realidade real, sólida e duradoura.
A exemplo, viu-se no ano passado, nas redes sociais o "jihadista hipster", jovem que se tornou o símbolo do poder de sedução do terror entre os jovens muçulmanos. Islam Yaken, que antes usava as redes sociais para exibir os músculos ganhos na academia, passou a dedicar seu perfil no Twitter a glorificação do califado de Abu Bakr Al-Baghdadi, o terrorista internacionalmente procurado que lidera o Estado Islâmico, e para postar fotos sangrentas, incluindo uma cabeça em uma cesta. Além disso, diversas notícias demonstram que há aproximadamente mais de 12 mil estrangeiros, de 81 países, que foram lutar na Síria nos últimos três anos, onde cerca de 3.000 teriam como origem países ocidentais.
Por fim, Bauman e Donskis discutem também o quanto líderes como Nelson Mandela, e Mahatma Gandhi representaram uma política realmente voltada para as questões da humanidade, possibilitando mudanças nas sociedades, relacionadas com seus valores morais. O mundo carece, demasiadamente, de líderes assim.
Fica a reflexão, do por que estes jovens, e tantos outras pessoas se identificam com o terror, com a violência? E novamente aponto, qual a importância das redes sociais nisso? E qual a responsabilidade de cada um? Afinal, a página do deputado Bolsonaro, denunciado pelo Ministério Público por incitação ao estupro, tem mais de 1 milhão de seguidores, enquanto uma outra página, chamada Algar gente servindo gente, para troca de conhecimento sobre inovação, empreendedorismo social, educação, etc, tem por volta de 27 mil seguidores. Ou senão de fato estamos caminhando para o “olho por olho, e o mundo acabará cego” (Gandhi), conforme narrado ao longo do livro Ensaio sobre a Cegueira. Por isso, sejamos a mudança que queremos VER no mundo.



Aline Tomasini






 

COMPLEXO DE MORFEU

Algo como morfina.

Proibido não conhecer Pablo Neruda!

Na alegria e leveza de suas palavras de amor ou na franqueza e paz invocada em suas palavras políticas, Pablo Neruda, originalmente batizado como Neftalí Ricardo Reyes, é um poeta que soube viver e encher o mundo de vida.
Antes de personificar-se como a poesia Chilena, Neruda era um estudioso e admirador de escritores de todo o mundo. Assim, quando mudou seu nome de batismo em ação de modificação de nome civil, homenageou os poetas tcheco Jan Neruda e o francês Paul Verlaine, reafirmando seu caráter de cidadão do mundo.
De tão cidadão do mundo era que, em 1927, começou sua carreira diplomática. Lutou contra o franquismo na Espanha ao lado do também poeta Federico García Lorca, assassinado pelos fascistas; o que lhe rendeu o poema "Espanha no coração".

Espanha no coração

Madrid isolada e solene, Julho te surpreendeu com tua alegria de colmeia pobre: tua rua era clara, claro era teu sonho. Um desejo negro de generais, uma vaga de sotainas raivosas rompeu entre teus joelhos suas lodosas águas, seus rios de escarro.
Todavia, com os olhos feridos de sono, com escopeta e pedras, Madrid, recém-ferida, defendeste-te. Corrias pelas ruas deixando estelas de teu santo sangue, reunindo e chamando com uma voz de oceano, com um rosto mudado para sempre pela luz do sangue, como uma vingadora montanha, como uma sibilante estrela de facas.
Quando nos tenebrosos quartéis, quando nas sacristias da traição entrou tua espada ardendo, não houve senão o silêncio do amanhecer, não houve senão teu passo de bandeiras, e uma gota de sangue em teu sorriso.

Foi ativista do Partido Comunista do Chile, foi Senador, foi candidato à presidência do Chile, apoiou Salvador Allende, homenageou Luis Carlos Prestes no Estádio do Pacaembu, recebeu o Prêmio Lênin da Paz, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, escreveu, encantou, inspirou, emocionou, se apaixonou.
Uma de suas paixões mais fortes era o mar. "La Chascona" é o museu em que fora transformada sua casa em Santiago do Chile, na qual podemos sentir a suavidade e firmeza em que levou sua vida. Com diversas peças e mobiliário que fazem menção ao mar, era assim que Pablo Neruda vivia: como quem navega amando o balanço, mas não perde a direção de seu barco nas ondas fortes.
A casa também possui diversos jardins, bibliotecas que afirmam seu amor pela leitura, fotos com amigos poetas, pequenas salas de reuniões e bares para receber amigos e fotos de sua amante Matilde, a quem havia dedicado "Os Versos do Capitão".

Os Versos do Capitão

Ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Além disso, tudo em sua casa é muito colorido e diversos objetos de decoração são presentes de amigos e lembranças dos vários lugares em que esteve. Sua casa é um verdadeiro santuário de arte mundial e uma prosopopeia de felicidade, amizade e amor.
O que, ademais, desperta interesse é perceber que em diversos alpendres de portas e portais e em algumas árvores percebemos pingentes de desenhos de olhos.

São os olhos do poeta que, sempre vigilantes e sensíveis, foram capazes de ver o bonito e admirá-lo, capazes de enxergar o feio e neutralizá-lo, desarmando-o.
Foi através desses olhos que Neruda viu o mundo; e através de sua escrita que o reformulou, analisou, sentiu e viveu.
Por isso, mas na verdade por muito mais, é proibido não conhecer Pablo Neruda. É proibido não ver um pouco a vida pelos seus olhos. Nos versos seguintes, somos brindados com uma verdadeira lição de vida, de quem a viveu cheio de suavidade e delicadeza:

É proibido

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.
É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,
Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos
Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,
Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,
Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,
Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,
Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,
Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,
Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.

Mesmo com a vida abreviada por uma doença, não foi breve sua lida nem sua lição.
É um presente conhecer seus versos e sua história. Apaixonar-se por suas linhas, encher o coração de paz, não se envolver por qualquer outro sentimento que não sejam aqueles que inspirem amor e amizade.
Desta forma, é um desperdício não navegar por estas águas poéticas que Pablo Neruda nos proporciona. Estes versos que resgatam sonhos e fazem crer que tudo pode ser muito mais belo, se vistos com os olhos certos.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Merry me?





"It's a beautiful night
We're looking for something dumb to do
Hey, baby
I think I wanna marry you

Is it the look in your eyes
Or is it this dancing juice?
Who cares, baby?
I think I wanna marry you (...)"



Passar o resto dos meus dias vivendo a vida que planejei com você,
ter a certeza de teu sorriso,
a calma de teu olhar,
a sinceridade da tua voz,
a certeza de cinquenta anos apaixonada.
Respeito e confiança.
Filhos, nosso apartamento...
Rir teu riso,
Planejar bobagens,
Passear de mãos dadas,
Te amar cada dia mais
e ser amada,
.
Não colocar ponto final. :)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Utopia de corpo e alma


Amor
Corpo e alma, acaso ou destino.
Paradoxo da vida.
Infinito em liberdade,
Foge ao meu controle. 
Ausência que dilacera,
Saudade que arde o peito.
Sem ele nada sou, esvazia-me a alma. 
Ausenta-me o coração. 
Sensação inebriante que embriaga de insensatez a inexplicável existência.

Amar... 
Ter em ti, a única pessoa a soma de todas necessárias. 
Respeito pela individualidade.
Admiração pelas virtudes. 
Apoio, solidariedade, união entre almas, algo
Além sentimento. 
Dedicação de compreender para depois aprender a amar os piores defeitos. 
Vento incansável soprando  no vale das montanhas, 
Gota de orvalho que brilha naturalmente pela relva.
Assim, é aprender a amar você. 

Amor...
Corpo e alma
Um só! 
Eternidade sem cura,
Cura? Para o quê?!
Intimidade sem fim. 
Amor? Amar-te! 

Aline Tomazini 

domingo, 4 de janeiro de 2015

Alecrim


Eu só quero poder chegar em casa e ver os guris correndo pelo pátio, gritando e chorando. João reclamando que ralou o joelho e o quão difícil é concentrar-se na matemática assim... e Francisco preocupado com a queda do primeiro dentinho e a estorinha confusa da fada do dente. Helena, ainda bebê querendo colo. Esse caos cotidiano, de entrar na sala, tirar o sapato e ouvir você me xingar lá da cozinha que estou sujando o tapete com as crianças... Envolver eles todos no colo e contar histórias até a hora do jantar. Dar banho. Por pra dormir. Olhar pra você, finalmente, amor! OLÁ!
Eu só quero encher a mesa de farelo de pão no café da manhã, lavar e secar a louça enquanto cê dá banho na Helena. Dormir contigo, acordar contigo e ver que, até quando você tá dormindo, cê tem o sorriso mais lindo do mundo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Meu Desejo

É simples,
Cabe dentro do espaço do peito,
É pequeno e cabe no imenso espaço do sonhar...
É gigante como o oceano,
profundo e inconstante...
Meu desejo é poesia sem rima,
É amor consumado em frenesi
É lenitivo e intenso...


Meu desejo por você é tão grande mas só cabe dentro do peito!



Mona M.



terça-feira, 5 de agosto de 2014

Apenas eu e o mar


Simbolista, que não acredita em símbolos. Isso me descrevia um pouco. Porém, você chega como um furacão em minha vida pacata em terra firme, me arrasta pro meio do oceano e, eu, terra, fico ilhada em você, oceano. 
Sim, é paixão, os primeiros dias foram de intensa paixão. E o resto da vida será de amor. Amor repentino, ao acaso. Que acontece porque deve acontecer. Porque é natural. É bonito. É nosso. E o que é nosso a gente passa o resto da vida inventando. Tema de livro. Assunto de filme. Carinhos na cama. 
É lindo porque é amor e não há felicidade sem amor. E se amar é pecado, o inferno é meu lar porque sua presença o transformaria em meu paraíso. Nosso paraíso. 
Nunca tinha sido tão forte. Tão único. Tão intenso. Tão mágico. Tão perfeito. Tão indiscritível. Tão eu.

Tão profundo...tão inconstante. Tão certo de tudo.

Mona M.